terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Dez anos depois

(...) e, depois de passar por uma experiência gratificante, senti o ímpeto de compartilhar essa história. Na verdade, eu quis registrar. Me lembrei deste blog, que apesar de não ser universitária mais, ainda carrego comigo minha bagagem por aí. 

Dez anos depois. Formada: em outro curso e outra universidade. Ainda morando nas Minas Gerais, mas tendo pulado por algumas cidades; agora, vivendo mais ao sul. Acompanhada de um ShihTzu chocolate de três anos de idade que atende pelos nomes Koda e Dudu. Depois de uma pandemia. Depois de muita coisa. 

Atendendo uma paciente há três meses na Unidade de Cuidados Prolongados da Santa Casa, hoje eu vi ela voltar a comer. Ah que sensação indescritível, maravilhosa! Para mim, SEMPRE é muito mais do que só voltar a comer: é você ver o desejo no semblante, a vontade de se comunicar querendo mais, o sorriso de quem está gostando. Todos os sinais indicando que o cérebro não deixou de lado o paladar, este sentido que já há algum tempo havia sido deixado de lado. 



Claro, você poder ver a família se empenhando em seguir suas orientações para alcançarmos mais objetivos é muito gratificante, é onde tudo vale a pena. Todo o empenho de dez anos. DEZ ANOS. De ter saído de casa, escolhido um caminho que me amadureceu em alguns sentidos e me fez querer trilhar este caminho. Que foi um desafio desde o princípio, desde a noite em que eu não queria nem sair do meu apartamento em Florestal para ir a Belo Horizonte: arrumar o cabelo, me matricular no cursinho. Nossa, parece que já faz tanto tempo... 

E hoje, a minha fofinha de +80 anos voltou a chupar um picolé. Já estava há uns dois meses de sonda. Chegou se alimentando, mas passou a recusar toda e qualquer comida que a ofertavam. E lá fui eu, à base da terapia indireta aliada a estimulação tátil-termo-gustativa, a tal da ETTG. Quantas vezes escutei esse termo durante a faculdade. E hoje se transformou na minha maior aliada para "eliciar o reflexo da deglutição." Veja só. Ativar um reflexo. Algo que o cérebro já faz sozinho. Ele nem pensa para fazer, ele faz, depois ele entende. Pra manter a gente vivo, ele fecha onde tem que fechar e abre onde tem que abrir e a comida para no lugar certinho. Mas, a minha fofinha, perdeu isso. Perdeu essa agilidade e me coube observar que 1) ela ainda tinha essa habilidade e que; 2)  podíamos tentar até alguns outros parâmetros também melhorarem. No meio do caminho, ela regrediu. Eu perdi as esperanças. Ela não vai voltar... Mas não parei a terapia, só mudei o foco: agora seria uma estimulação de conforto. 

Que evoluiu para uma ideia. E que vai evoluir para uma nova avaliação, com outros instrumentos e outros alimentos. Associado a mais parâmetros que poderemos observar e... quem sabe? Retirar a sonda e talvez nem precisar fazer a gastrostomia. 

Independente do desfecho: hoje ela conseguiu. Hoje ela sorriu e saboreou-se com seu picolé de uva. E me fez lembrar o quão bom é fazer o que eu faço. O quanto todos os sobe e desces valeram a pena. O quanto todas as lágrimas e dorzinhas tiveram um propósito. E também serve de uma grande lição: paciência. Aguarde, tenha paciência, haja e observe. Respeitar o meu próprio tempo e o tempo de cada um. Estude, atualize-se, repita até realizar com maestria. Não para mim, mas para quem necessita da minha precisão. 


Hoje eu sou Fonoaudióloga. Há cinco poucos meses. Sou Renata, Fono. Ainda me acostumando com essa nova versão oficializada de mim. Que tem como alicerce algo que venho elaborando há anos e que sempre me deu prazer: compreender o outro, entender a necessidade do outro, mas finalmente entregar tecnicamente o que o outro precisa, e não desprender de mim mesma para doar. 




Um grande até logo,

Renata Sol.